Fotos: Pedro Guerreiro/Agência Pará
A Amazônia, lar de uma das maiores biodiversidades do planeta, enfrenta um paradoxo cruel: a insegurança alimentar. Em estados como Pará, Amazonas e Amapá, dados apontam para um cenário preocupante onde a desnutrição infantil coexiste com a obesidade em idosos, mesmo em comunidades cercadas por florestas e rios. Barreiras logísticas, mudanças climáticas e fatores socioculturais criam um abismo entre a riqueza natural e o prato da população.
Falar sobre segurança alimentar no contexto amazônico é “delicado e importante”, como aponta Josiana Kely Moreira, docente de Nutrição da Estácio. “A nossa região é caracterizada por grandes distâncias, seja por meio terrestre ou aquático, e as comunidades ribeirinhas enfrentam muita dificuldade para acessar alimentos de qualidade”, explica. A especialista define o ideal de segurança alimentar como o “acesso contínuo e suficiente a alimentos nutritivos e culturalmente apropriados”, algo que deveria cobrir todas as fases da vida, “desde a infância até a fase idosa, sem comprometer a saúde”.
A realidade, no entanto, é distante do ideal. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) mostram que a Região Norte tem sofrido retrocessos na última década, com “números alarmantes de insegurança alimentar moderada e grave”. O contraste é visível: Manaus (AM) registra índices de obesidade e sobrepeso entre os mais altos do país, enquanto o Pará, meu estado, vê índices graves de desnutrição infantil em regiões como o Marajó e Carajás.
Os impactos da má alimentação na saúde são severos e variados. Fabio Sales, docente do IDOMED e cirurgião geral com atuação em gastroenterologia, detalha as consequências. “Se você tem uma desnutrição ou deficiência alimentar prolongada, você pode ficar mais propício a infecções, uma vez que o sistema imunológico fica comprometido. Você pode ter má digestão, problemas como diarréias, constipação, gastrite, perda de peso, refluxo, obesidade”, alerta o médico.
O Dr. Sales ainda ressalta o perigo da carência de vitaminas e minerais essenciais, muitas vezes negligenciada. Ele cita três exemplos focais:
Ferro: “Carência de ferro vai causar anemia e outras doenças.”
Zinco: “No caso de deficiência de zinco, há diarréia, dificuldade de cicatrização e irritabilidade na mucosa gástrica.”
Vitamina A: “Já no caso da falta de vitamina A, o paciente pode apresentar doenças visuais, queda de cabelo, fraqueza muscular, síndromes disabsortivas, doenças hepáticas, e por aí vai.”
Além dos desafios logísticos e socioeconômicos, as mudanças climáticas agravam o cenário. “Eventos extremos como secas, enchentes e queimadas podem afetar a qualidade da água, aumentar a proliferação de doenças e prejudicar a produção e distribuição de alimentos, tornando-os mais caros”, afirma a nutricionista Josiana Moreira. Segundo ela, isso “exige medidas de adaptação, melhorias em higiene e políticas de conservação”.
Diante do avanço de alimentos industrializados, a solução pode estar na própria floresta. A valorização de alimentos típicos como açaí, castanha-do-Pará e mandioca — fontes ricas de fibras, gorduras saudáveis e vitaminas — é um caminho. Outro pilar é o fortalecimento da agricultura familiar. Para Josiana Moreira, essa prática “permite a produção de alimentos diversificados, acesso a mercados locais, adaptação e resiliência ao combinar práticas tradicionais com técnicas modernas”. Além disso, preserva saberes, conserva a biodiversidade e gera renda, “fortalecendo as comunidades”.
Garantir a segurança alimentar na Amazônia, portanto, é mais do que vencer distâncias; é manter viva a cultura alimentar local. “É muito importante que o trabalho seja feito em conjunto com a comunidade, principalmente no ensino de hábitos alimentares na família e na escola, criando padrões duradouros e conscientes de alimentação saudável e fortalecendo o acesso a alimentos variados e nutritivos”, conclui a docente.
