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Saúde

Resistência a antibióticos acende alerta global na OMS

admin
Ultima atualização: 25 de novembro de 2025 11:09
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Resistência a antibióticos acende alerta global na OMS
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Resistência a antibióticos acende alerta global na OMS

Foto: psphotograph | Getty Images

A linha tênue que separa a medicina moderna de um cenário quase distópico, em que infecções simples voltam a ser sentenças fatais, está ficando cada vez mais estreita. Na semana passada, aconteceu a Semana Mundial de Conscientização da Resistência aos Antimicrobianos, uma mobilização global liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O alerta não é figura de linguagem: o primeiro relatório mundial consolidado sobre o tema, divulgado em outubro de 2025, aponta que a resistência bacteriana cresceu mais de 40% nos últimos cinco anos.

Sob o tema “Aja Agora: Proteja o Nosso Presente, Garanta o Nosso Futuro”, a campanha deste ano tentou frear o avanço da chamada RAM (Resistência Antimicrobiana). O fenômeno ocorre quando microrganismos como bactérias, fungos, vírus e parasitas evoluem e deixam de responder aos medicamentos existentes. O resultado disso aparece na prática: tratamentos mais longos e complexos, internações prolongadas, aumento de custos e maior risco de mortalidade por infecções que, em tese, já deveriam ser controladas com relativa facilidade.

O que dizem os dados

O Relatório Mundial de Vigilância da Resistência aos Antibióticos 2025 (GLASS/OMS) reúne informações de mais de 100 países e coloca em números a preocupação que há anos ecoa em hospitais e laboratórios. Entre 2018 e 2023, o crescimento médio anual da resistência variou entre 5% e 15%, a depender da bactéria e do antibiótico analisado.

O dado que mais chama atenção é a presença da resistência em infecções consideradas cotidianas. Em 2023, uma em cada seis infecções bacterianas comuns já se mostrou resistente aos antibióticos. Casos rotineiros, que antes respondiam bem a esquemas simples, agora exigem terapias de segunda ou terceira linha, geralmente mais tóxicas, mais caras e nem sempre disponíveis em todos os serviços de saúde.

As vilãs desse cenário são velhas conhecidas dos prontuários médicos: a Escherichia coli, frequentemente associada a infecções urinárias, e a Klebsiella pneumoniae, comum em quadros respiratórios e infecções hospitalares. O relatório aponta que mais de 40% das infecções por E. coli e 55% por K. pneumoniae já não respondem às cefalosporinas de terceira geração — antibióticos que, até pouco tempo, eram a principal defesa em casos graves de sepse, quando o organismo entra em falência progressiva devido à infecção.

Na prática, a conta não fecha: quanto mais resistência, menor a margem de segurança para procedimentos que viraram rotina da medicina contemporânea, como cirurgias de médio e grande porte, quimioterapia, transplantes e partos cesáreos.

Cenário brasileiro: alerta vermelho nas UTIs

Nas Américas, a média global é de uma infecção resistente a cada sete casos. Dentro desse recorte, o Brasil aparece em posição ambígua: é um dos poucos países da região a fornecer dados robustos para o sistema global de vigilância, mas também exibe números que acendem um alerta específico para o ambiente hospitalar.

O país registrou que mais da metade (52,8%) das cepas de Acinetobacter spp. são resistentes ao imipenem, um dos antibióticos mais potentes utilizados em UTIs. Essa bactéria é uma das principais causadoras de pneumonias graves e infecções na corrente sanguínea em pacientes internados, especialmente os mais críticos.

Uma taxa de resistência superior a 50% significa, em termos muito diretos, que em metade dos casos um dos medicamentos de “último recurso” simplesmente não funciona. Em um cenário de superlotação, filas por leitos e desigualdade no acesso a exames laboratoriais, essa limitação terapêutica aumenta a pressão sobre equipes médicas e sobre o sistema de saúde como um todo.

Em hospitais com menos estrutura, onde faltam diagnóstico preciso e vigilância contínua, o risco é cair em tratamentos “no escuro”, baseados mais na tentativa e erro do que em evidência laboratorial. Isso abre espaço para mais uso inadequado de antibióticos e para a seleção de microrganismos ainda mais resistentes, alimentando um ciclo difícil de quebrar.

Ação e prevenção: quem pisa no acelerador somos nós

A resistência antimicrobiana é, em parte, um resultado natural da evolução biológica. Microrganismos se adaptam, mudam, testam limites. Mas o modo como a humanidade usa (e abusa) dos medicamentos é o que determina a velocidade dessa curva. Hoje, estamos pisando no acelerador.

O uso indiscriminado de antibióticos na saúde humana, na agropecuária e até na produção de alimentos funciona como combustível para esse processo. Em muitos casos, remédios são usados sem necessidade, com dose inadequada ou por tempo errado — tanto em consultórios quanto em fazendas e granjas, para prevenir doenças em rebanhos inteiros, mesmo sem infecção diagnosticada.

O infectologista Filipe Piastrelli, gerente médico do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, reforça que a responsabilidade é compartilhada entre governos, serviços de saúde, profissionais e população em geral.

“A resistência bacteriana é um fenômeno natural, mas o uso inadequado e excessivo de antibióticos acelera esse processo. Prescrever ou usar esses medicamentos de forma responsável é fundamental”, explica o especialista.

Piastrelli sublinha um básico que costuma ser ignorado: não interromper o tratamento antes da hora e jamais se automedicar. Tomar “resto de antibiótico” que sobrou em casa, usar medicamento emprestado de outra pessoa ou insistir por uma receita em casos de gripe e resfriado — causados por vírus, e não por bactérias — ajuda a construir o cenário que hoje preocupa a OMS.

Uma Só Saúde: humanos, animais e ambiente

O combate à resistência antimicrobiana passa pela abordagem de “Uma Só Saúde” (One Health), que integra saúde humana, saúde animal e meio ambiente. Antibióticos usados em larga escala na criação de animais, resíduos de medicamentos descartados de forma inadequada que chegam a rios e solos e a falta de saneamento básico formam o ambiente perfeito para a seleção de microrganismos mais resistentes.

Sem essa visão integrada, os avanços da medicina que garantiram aumento da expectativa de vida nas últimas décadas correm risco real de retrocesso. A OMS e outras entidades internacionais insistem na combinação de medidas: uso racional de antimicrobianos, ampliação da vigilância, investimento em diagnósticos, saneamento básico e inovação em novos medicamentos e vacinas.

O que cada pessoa pode fazer

Mesmo sendo um problema global, com impacto em políticas públicas e em sistemas de saúde inteiros, há atitudes individuais que ajudam — e muito — a frear a resistência antimicrobiana:

➲ Não usar antibiótico por conta própria: só com prescrição médica.

➲ Respeitar a receita: tomar o remédio pelo tempo e na dose recomendados, mesmo que os sintomas melhorem antes.

➲ Não pressionar profissionais de saúde por antibiótico em casos de gripe, resfriado e outras infecções virais.

➲ Manter as vacinas em dia, reduzindo o risco de infecções que podem exigir antibióticos depois.

➲ Reforçar a higiene das mãos, dos alimentos e dos ambientes, ajudando a diminuir a circulação de microrganismos.

Do lado dos serviços de saúde, a resposta passa por fortalecer programas de uso racional de antimicrobianos (antimicrobial stewardship) e de prevenção e controle de infecções, com protocolos claros para prescrição, treinamento de equipes, vigilância ativa e estrutura laboratorial adequada.

No fim, o recado da Semana Mundial foi direto, ainda que incômodo: se nada mudar, a medicina volta algumas casas no tabuleiro. A notícia menos amarga é que ainda há tempo para agir — desde que a resistência antimicrobiana saia da invisibilidade, seja tratada como prioridade de saúde pública e que cada comprimido deixe de ser automático para se tornar, de fato, uma escolha consciente.

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