Foto: Troyana de Getty Images
A gente costuma achar que o perigo mora na esquina, na garrafa sem rótulo vendida na porta da festa ou no drink barato de procedência duvidosa. Mas quando a ameaça se esconde na prateleira iluminada de um supermercado, com nota fiscal e a falsa segurança do comércio formal, o buraco é, literalmente, mais embaixo. A confirmação chegou como um soco no estômago da nossa normalidade: o Pará registrou o seu primeiro caso de intoxicação por metanol proveniente de um uísque comprado legalmente em um supermercado.
Não estamos falando daquela ressaca moral ou física que um tacacá bem quente cura no dia seguinte. Estamos falando de veneno. O caso, que agora coloca as autoridades sanitárias do estado (Sespa e Adepará) em alerta máximo, integra um cenário nacional preocupante que já vinha desenhando um mapa do medo em outros estados.
O rastro do perigo pelo Brasil
O Pará não é uma ilha isolada neste problema. A nossa ocorrência se soma a um surto que tem São Paulo como epicentro, onde se concentram a maioria dos mais de 100 casos notificados e óbitos confirmados pelo Ministério da Saúde. Mas a “mancha de óleo” se espalhou: Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Bahia e Pernambuco também investigam casos ou já confirmaram intoxicações.
A Polícia Federal (PF) tem realizado operações de guerra, batendo em portas de fábricas clandestinas em cidades como Campinas (SP), Chapecó (SC) e Poços de Caldas (MG). A suspeita é que o crime organizado esteja desviando metanol — usado legitimamente apenas na indústria de combustíveis e solventes — para “batizar” bebidas de marcas famosas, incluindo lotes de Ballantine’s Finest, enganando até mesmo revendedores honestos.
Por que o metanol mata? (traduzindo o jargão médico)
Muita gente se pergunta: “mas álcool não é tudo igual?”. Definitivamente não. Para explicar de forma bem simples, imagine que o metanol é um “Cavalo de Troia”. Ele entra no seu corpo disfarçado de álcool comum (etanol): tem a mesma cor, o mesmo cheiro e deixa você “alegre” do mesmo jeito. O problema começa quando ele chega ao fígado.
Diferente do álcool da cerveja, que o corpo consegue processar relativamente bem, o fígado transforma o metanol em ácido fórmico. É como se, de repente, seu sangue começasse a virar ácido. Esse ácido ataca violentamente as células do corpo, mas tem uma “predileção” cruel pelos olhos. Ele destrói o nervo óptico, causando cegueira irreversível, e depois ataca os rins e o cérebro, levando à falência múltipla dos órgãos e à morte. E o pior: tudo isso acontece horas depois da bebedeira, quando você acha que está apenas com uma ressaca forte.
A resposta do Estado: Pará preparado
Apesar da gravidade da notícia, há um alento. O Governo do Pará, através da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), não foi pego de calças curtas. Antecipando-se à possibilidade do surto chegar ao Norte, o estado já havia recebido do Ministério da Saúde, ainda em outubro, um lote com 60 unidades de fomepizol.
O fomepizol é o “padrão ouro” mundial, o antídoto específico que bloqueia a ação tóxica do metanol, impedindo que ele vire aquele ácido mortal que explicamos acima. Além disso, a rede de saúde está orientada a usar o etanol farmacêutico e hemodiálise como medidas de contenção. Embora a Prefeitura de Belém não tenha anunciado compras separadas de kits, a rede de urgência e emergência da capital (UPAs e PSMs) está integrada ao protocolo estadual de atendimento para identificar e tratar esses casos rapidamente.
Vigilância redobrada
O drama desse consumidor paraense, cuja identidade está sendo preservada, acende um sinal vermelho que pisca freneticamente para todos nós. A Vigilância Sanitária e a Polícia Civil já estão rastreando o lote para entender como essas garrafas chegaram ao estoque do supermercado. Enquanto isso, a recomendação é de cautela absoluta.
Se você ou alguém próximo bebeu uísque, vodka ou gin recentemente e apresentou sintomas visuais (visão embaçada, manchas brancas) ou desconforto gastrointestinal severo, não espere “melhorar”. O tempo é o fator crítico para evitar sequelas permanentes.
Este não é um convite ao pânico, mas à consciência. Nós, paraenses, que temos no convívio social uma de nossas maiores riquezas, precisamos estar atentos. A fiscalização deve ser rigorosa, mas o nosso olhar, antes do primeiro gole, deve ser clínico.
SERVIÇO: COMO AGIR EM CASO DE SUSPEITA
Sintomas: Visão turva (como se estivesse nevando), cegueira repentina, dor abdominal intensa, vômitos, tontura severa e dificuldade para respirar.
O que fazer: Procure imediatamente uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou Hospital. Informe se bebeu destilados nas últimas 48h.
Disque-Intoxicação (Anvisa): 0800 722 6001 (ligação gratuita, funciona 24h).
Importante: Se possível, guarde a garrafa ou o resto da bebida para análise. Isso ajuda o médico no diagnóstico e a polícia na investigação.
