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Em um Brasil conectado, um vídeo foi o suficiente para acender o pavio. A produção “Adultização”, do youtuber Felca, nascida para denunciar a exploração de crianças na internet, acabou por jogar luz sobre um problema ainda mais silencioso e onipresente, que mora em nossas casas e na palma das mãos de nossos filhos: a exposição precoce e o vício em telas. A discussão, que viralizou, apenas confirmou o que a ciência já alertava: estamos diante de uma geração em risco.
O brilho que hipnotiza esconde uma armadilha. A linha que separa o uso saudável da tecnologia de uma patologia com consequências graves é tênue, e muitos já a cruzaram sem perceber. O psicólogo e docente do IDOMED, Felipe Barata, desenha o cenário do vício com precisão. Ele se manifesta “quando a ideia de ficar sem celular é aterradora, quando almoçar sem assistir a um vídeo se torna intolerável ou quando acordar e não verificar as notificações provoca um vazio”.
Para o especialista, o vício se consolida quando o aparelho se torna um apêndice do corpo e da mente, um refúgio contra o mundo real. “A pessoa conversa, come, interage e assiste a filmes sempre dividindo a atenção entre o evento real e o dispositivo”, explica Felipe. O uso deixa de ter um propósito e vira uma fuga, uma forma de “ocupar o cérebro com algum estímulo” para evitar a socialização e o encontro consigo mesmo.
As consequências dessa imersão digital descontrolada são devastadoras, especialmente para cérebros em formação. Os danos, segundo o psicólogo, vão muito além de questões físicas, como problemas oftalmológicos e má postura. O verdadeiro estrago acontece na mente. “Os efeitos psicológicos aparecem no comprometimento do sono, em sintomas ansiosos, na fragmentação da atenção, na irritabilidade e na distorção da autoimagem a partir da comparação com realidades intangíveis”, ressalta.
Um Problema de Saúde Global
O alerta não é um caso isolado do Brasil. A Organização das Nações Unidas (ONU) trata a segurança online de crianças e jovens como uma pauta prioritária. Dados da organização revelam um ambiente digital hostil: mais de 33% dos jovens em 30 países relatam ter sofrido cyberbullying, e alarmantes 80% das crianças em 25 nações sentem-se em perigo de abuso ou exploração sexual online.
A internet, sem a devida supervisão, transforma-se em um campo minado. Conteúdos inapropriados, que vão da sexualização precoce à violência explícita, estão a poucos cliques de distância. Crianças e adolescentes, como adverte Felipe Barata, “não dispõem de recursos afetivos, comportamentais e cognitivos para lidar com esses temas”. Essa vulnerabilidade pode abrir portas para tragédias, como o infame jogo da “Baleia Azul”, que usava uma falsa aparência lúdica para induzir jovens a práticas perigosas.
Diante do avanço veloz da tecnologia, a legislação parece correr em câmera lenta. Para Claudine Rodembusch, docente de Direito da Estácio, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não foi pensado para a era digital. Embora seus princípios de proteção se apliquem, a falta de artigos específicos cria uma zona cinzenta. “É urgente a criação de novas normas jurídicas capazes de atender às demandas sociais decorrentes da rápida disseminação das tecnologias”, defende.
No Brasil, o cenário começa a mudar. O governo federal lançou um guia para o uso saudável de telas e instituiu um grupo de trabalho interministerial para debater o tema. Além disso, tramita no Congresso o Projeto de Lei nº 2.628/2022, que busca regulamentar o acesso de crianças e adolescentes a redes sociais, visando protegê-los de conteúdos inadequados e publicidade abusiva.
SERVIÇO: COMO PROTEGER AS CRIANÇAS?
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Diálogo aberto: Converse com os filhos sobre os riscos e benefícios da internet.
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Supervisão ativa: Para crianças menores, vistorias em celulares e computadores são recomendadas. Para adolescentes, o acompanhamento deve vir através da conversa franca.
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Estabeleça limites: Defina horários e locais onde o uso de telas é permitido, evitando o uso durante refeições e antes de dormir.
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Seja o exemplo: De nada adianta proibir o uso excessivo se os próprios pais não largam o celular. Como enfatiza a professora Claudine, “pais e responsáveis precisam educar esses menores e educar a si mesmos”.
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Use a tecnologia a seu favor: A internet é uma ferramenta poderosa de aprendizado e cultura. Incentive o uso para pesquisas escolares, cursos e acesso a conteúdos educativos.
A solução, apontam os especialistas, não está em demonizar a tecnologia, mas em reeducar a nós mesmos e às novas gerações. A internet pode ser uma janela para o mundo, desde que saibamos quando e como olhar através dela, sem deixar que o brilho da tela apague a luz do mundo real.
