Ansiedade climática afeta saúde mental de 42% dos brasileiros
Pesquisa inédita revela que crise do clima causa medo, insônia e dificuldade de trabalhar no Brasil, com impacto maior sobre as mulheres.
04/11/2025 09h25 – Atualizado há 12 horas
Foto: SergioRocha / Shutterstock.com
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A crise do clima também é uma crise de saúde mental. Nova pesquisa do Instituto Cactus revela que 42% dos brasileiros já sentem na mente os efeitos das mudanças climáticas. A ansiedade climática, marcada por medo, preocupação excessiva e insônia, atinge principalmente as mulheres. Os dados mostram a urgência de tratar a saúde planetária e a saúde mental como causas interligadas.
A crise climática deixou de ser uma ameaça distante para se tornar uma fonte concreta de sofrimento psíquico no presente. É o que revela a 4ª edição do Panorama da Saúde Mental, estudo realizado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel. Os dados mostram que 54% dos brasileiros se preocupam diariamente ou semanalmente com os impactos das mudanças climáticas, e esse fenômeno já tem um nome na psicologia: a ansiedade climática.
O levantamento, que ouviu 10.025 pessoas com 16 anos ou mais de todo o país, aponta que quase 42% da população já sente os efeitos da crise climática em sua saúde mental. O problema se manifesta em emoções e rotinas: 58% se sentem nervosos, ansiosos ou inquietos, 51% sentem medo e 44% se declararam excessivamente preocupados. A pesquisa vai além do sentimento de apreensão e mapeia como a ansiedade climática interfere na qualidade de vida.
Entre 34% e 36% dos entrevistados relataram dificuldades para dormir, trabalhar ou se relacionar socialmente em função desse estresse. O dado ganha contornos mais dramáticos quando se considera que 74,3% dos brasileiros já vivenciaram diretamente desastres ambientais, como enchentes, queimadas e ondas de calor. “As mudanças climáticas já têm um impacto direto no cotidiano e na saúde emocional de milhões de brasileiros.
Não se trata apenas de uma questão ambiental, mas também humana e social”, analisa Maria Fernanda Quartiero, diretora-presidente do Instituto Cactus. “Quando uma família perde a casa em um desastre, ou quando uma chuva mais forte desperta o medo de perder o pouco que tem, isso também afeta o equilíbrio mental.” A crise climática não atinge a todos da mesma forma, e os dados evidenciam uma disparidade significativa de gênero. As mulheres são as mais afetadas pela ansiedade climática: 47,4% das mulheres se preocupam diariamente com o tema, contra 27,9% dos homens; 49,2% delas afirmam que as mudanças climáticas já afetaram sua saúde mental, ante 34,3% dos homens; A carga da responsabilidade também é maior: 47% das mulheres sentem que precisam contribuir para resolver o problema, quase o dobro do percentual entre os homens (25,5%).
O estudo também traz um retrato mais amplo da saúde mental no Brasil. O Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM) da população geral registrou uma leve queda, passando de 682 para 667 (em uma escala de 0 a 1000). Jovens de 16 a 24 anos e mulheres seguem como os grupos com os indicadores mais frágeis. A pesquisa reforça a forte ligação entre questões socioeconômicas e bem-estar mental: 83% dos entrevistados declararam ter preocupações com a situação financeira.
Além disso, problemas como sono irregular e cansaço são comuns: 72% dormiram menos de seis horas em pelo menos uma noite nas últimas duas semanas, e 64% relataram sonolência intensa durante o dia. Os resultados destacam a necessidade de políticas públicas intersetoriais que considerem a saúde mental não apenas como uma questão individual, mas como um reflexo de desafios coletivos, como a crise climática e a desigualdade social.
FONTE: FT Estratégias
