OMS propõe aumento de 50% nos preços de produtos nocivos à saúde; especialistas avaliam os impactos
Proposta para taxar produtos nocivos visa salvar 50 milhões de vidas, mas especialistas debatem os impactos na economia, no consumo e o risco de contrabando.
Portal Belém – Thaís Raquel de Moraes
17/07/2025 15h59 – Atualizado há 1 semana
5 Min
Edifício-sede da OMS em Genebra, Suíça. 18-02-2020. Foto: arquivo VCG
A Organização Mundial da Saúde (OMS), orgão das Nações Unidas (ONU) para fins de saúde, jogou uma pedra no lago calmo dos nossos hábitos de consumo. A proposta é ousada: aumentar os preços de bebidas açucaradas, álcool e tabaco em pelo menos 50% nos próximos dez anos, usando o velho conhecido imposto como ferramenta. O objetivo, anunciado no início de julho, é nobre e ambicioso: conter o avanço galopante de doenças crônicas não transmissíveis e, com isso, evitar cerca de 50 milhões de mortes prematuras no próximo meio século.
A medida, que pela primeira vez estabelece uma meta conjunta para os três grupos de produtos e já acena para a inclusão dos alimentos ultraprocessados na lista, esquentou o debate global entre saúde pública e economia. Afinal, qual o custo real de uma vida mais saudável?
O preço da saúde: o que dizem os médicos
Para quem está na linha de frente do combate às doenças, a proposta é música para os ouvidos. O cardiologista e professor Herbert Mendes não economiza nos alertas sobre os riscos do consumo regular desses produtos. Segundo ele, o trio é um passaporte quase garantido para problemas como obesidade, diabetes e hipertensão arterial, que, por sua vez, abrem as portas para os vilões cardiovasculares: infarto, AVC e insuficiência cardíaca.
“As bebidas açucaradas são fontes de ‘calorias vazias’, favorecendo o ganho de peso. O álcool é tóxico para o coração, eleva a pressão e pode levar à cardiotoxicidade. Já o fumo é um agente altamente nocivo, que aumenta o risco de mortalidade de forma drástica”, explica o médico.
E se engana quem pensa que os efeitos são apenas a longo prazo. Mendes é categórico ao afirmar que o perigo bate à porta mais cedo do que se imagina. “Não faz sentido dizer que o cigarro só faz mal a longo prazo. Já existem evidências de que o risco cardiovascular entre os jovens aumenta desde cedo”, ressalta.
Além do impacto físico, o cardiologista aponta para uma questão social e psicológica. Muitas vezes, esses produtos funcionam como uma válvula de escape para o sofrimento emocional ou o isolamento social. “A busca por alívio imediato e sensações de prazer leva ao consumo excessivo, o que aumenta as chances de vício e, consequentemente, de complicações graves à saúde”, conclui.
Impacto no bolso e na indústria: o debate dos economistas
Se a proposta da OMS se tornasse realidade, o impacto econômico seria inevitável. Mas como ele se daria? Para o economista Franz Pettuceli, professor da Wyden, o efeito mais significativo não seria uma arrecadação trilionária, mas sim uma transformação no perfil de consumo e, por consequência, uma readequação forçada da indústria.
“Não acredito em uma tributação de um trilhão de dólares. O que vamos ter é uma migração de produtos danosos para uma nova onda de produtos mais saudáveis”, projeta Pettuceli. Ele traça um paralelo com as restrições ao cigarro nas últimas décadas, que, embora duras, impulsionaram uma mudança cultural. A expectativa é que a indústria, pressionada pela queda no consumo dos itens taxados, se adapte e passe a oferecer alternativas mais saudáveis, inclusive para a população de baixa renda.
Por outro lado, o professor de economia Hugo Meza, da Estácio, embora reconheça os benefícios para a saúde pública, acende um alerta importante: o efeito regressivo do imposto. Ele explica que, como os mais pobres destinam uma fatia maior de sua renda a esses produtos, seriam os mais impactados pelo aumento de preços.
“Para minimizar o impacto desproporcional sobre as populações de baixa renda, algumas medidas podem ser adotadas, como o reinvestimento da receita em programas sociais e de saúde”, sugere Meza.
Outro ponto levantado pelo economista é a chamada elasticidade-preço da demanda. No curto prazo, o consumo tende a ser inelástico, ou seja, mesmo com o aumento, muitas pessoas, especialmente as que já têm dependência, continuarão comprando. A mudança de comportamento, portanto, não é imediata.
Ambos os economistas, no entanto, concordam em um ponto: o risco do crescimento do mercado ilegal. Com o encarecimento dos produtos legais, o contrabando e a produção clandestina podem se tornar mais atraentes. “É crucial investir em medidas de combate ao contrabando para garantir a eficácia da política e a arrecadação”, alerta Meza.
Apesar das visões distintas sobre os efeitos colaterais, os especialistas parecem convergir na ideia de que a indústria terá de se reinventar. A “nova onda fit”, como define Pettuceli, pode não ser uma opção, mas uma necessidade de sobrevivência em um mundo que, cada vez mais, coloca a saúde na conta do mercado.
