Foto: Carlos Duarte
Neste 1º de outubro, o Brasil celebra o Dia Nacional do Idoso, uma data para refletir sobre a importância, o respeito e, principalmente, os direitos da população com mais de 60 anos. A celebração, no entanto, vem acompanhada de um desafio monumental e cada vez mais presente: como garantir que esses direitos, especialmente o acesso à saúde, sejam efetivos em um planeta em plena crise climática? A resposta a essa pergunta se desenha em cenários cada vez mais comuns, como o de um senhor, morador de uma comunidade rural na Amazônia, que precisou de atendimento de urgência. O chiado no peito e a tosse incessante não eram um vírus novo, mas o resultado da fumaça das queimadas que agravaram sua Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC). Este caso é um retrato fiel de como as mudanças climáticas estão colidindo diretamente com a saúde e o bem-estar dos nossos idosos.
A data de hoje não foi escolhida ao acaso. Ela marca o dia em que o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741) entrou em vigor, em 2003, um marco legal que assegura direitos fundamentais. A data também coincide com o Dia Internacional das Pessoas Idosas, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1991, para sensibilizar a sociedade global sobre o envelhecimento da população e a necessidade de proteger e cuidar dessa parcela. Celebrar este dia é, portanto, reforçar a luta por dignidade, e hoje, essa luta passa por entender e combater os novos riscos ambientais.
O país envelhece em ritmo acelerado. Projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, em menos de 40 anos, o Brasil terá 75,3 milhões de cidadãos com mais de 60 anos. Ao mesmo tempo, os eventos climáticos extremos se tornam o “novo normal”. Nesse cenário, a ONU já acendeu o alerta em 2022: é preciso dar atenção especial à terceira idade, cuja saúde mais vulnerável os coloca na linha de frente dos riscos ambientais.
“As mudanças climáticas estão afetando a saúde humana por conta do aumento da temperatura, principalmente em regiões tropicais como o Brasil, e isso faz com que o sistema orgânico fique mais vulnerável e estressado por conta da variação do tempo”, explica Amanda Mello, mestre em Patologia das Doenças Tropicais e docente do curso de Farmácia da Estácio. Segundo ela, nos trópicos, a situação é ainda mais delicada. “Há aumento da proliferação de doenças transmitidas por vetores, causando epidemias locais que, se não forem controladas, podem se tornar pandemias”, completa.
Os dados globais pintam um quadro sombrio. Uma pesquisa publicada na prestigiosa revista The Lancet em 2023 revelou que as mortes relacionadas ao calor extremo entre pessoas com mais de 65 anos aumentaram 167% desde 1990. Nos Estados Unidos, um estudo da Universidade de Michigan mostrou que mais de 70% dos idosos já enfrentaram desastres climáticos críticos, como ondas de calor, incêndios e tempestades severas.
No Brasil, a realidade não é diferente. As recentes e devastadoras enchentes no Rio Grande do Sul ou as secas que assolaram a Amazônia em anos anteriores, por exemplo, não apenas destruíram casas e espaços, mas também romperam redes de apoio essenciais para os idosos, causando um deslocamento forçado e impactos emocionais e sociais profundos nos sobreviventes. A perda súbita do lar e da rotina pode ser um gatilho para quadros de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.
Estatuto do Idoso e o direito à saúde sob ameaça
O Estatuto do Idoso é claro em seu artigo 15, garantindo a atenção integral à saúde da pessoa idosa por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Isso inclui desde o atendimento preferencial até o fornecimento gratuito de medicamentos de uso continuado, próteses e órteses. O estatuto também assegura o direito a um acompanhante durante internações hospitalares. Contudo, a crise climática impõe uma pressão sem precedentes sobre esse direito. Segundo Leonardo Brando de Oliva, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), “as condições climáticas extremas, como ondas de calor, colocam uma pressão adicional sobre um sistema de saúde que já enfrenta dificuldades”, ameaçando a capacidade do sistema de cumprir o que a lei determina.
A especialista Amanda Mello reforça que a simples mudança brusca de temperatura é um agressor silencioso. “Ora está quente, ora está frio. Essa mudança é sentida por idosos, principalmente aqueles com histórico de doenças como artrite, artrose e reumatismo, tornando-os mais fragilizados e suscetíveis a gatilhos para outras doenças”, detalha.
Na nossa Amazônia, a irregularidade de calor e chuvas intensifica a proliferação de doenças como dengue, zika, malária e chikungunya. O calor intenso, por sua vez, pode causar desidratação, picos de pressão alta e até descompensação cardíaca. Em cenários de enchentes, a falta de saneamento básico leva à contaminação da água e dos alimentos, abrindo portas para doenças diarreicas e leptospirose.
Diante de uma realidade tão impositiva, a prevenção e o cuidado redobrado se tornam ferramentas de sobrevivência. Evandro Rios Soté, docente de IDOMED e médico de Família e Comunidade, sinaliza que o cuidado com a população idosa deve ser prioridade.
Como proteger a saúde dos idosos
O Ministério da Saúde e especialistas recomendam um conjunto de ações para mitigar os riscos associados aos eventos climáticos extremos. Fique atento às orientações:
>> Hidratação: Beba muita água, mesmo sem sentir sede. Sucos naturais e água de coco são ótimas opções. Evite bebidas alcoólicas, que causam desidratação.
>> Exposição ao Sol: Evite sair de casa nos horários de maior calor, geralmente entre 10h e 16h. Se precisar sair, use roupas leves, de cores claras, chapéu e protetor solar.
>> Ambientes com Fumaça: Em dias de fumaça intensa por queimadas, mantenha portas e janelas fechadas. O uso de máscaras simples (PFF2 ou TNT) é recomendado.
>> Alimentação: Dê preferência a alimentos leves e frescos, como saladas, frutas e legumes. Evite comidas pesadas e gordurosas.
>> Monitoramento: Redobre a atenção ao controle de pressão, glicemia e função respiratória. Em caso de cansaço extremo, tontura, falta de ar, vômito ou febre, procure ajuda médica imediatamente.
>> Cuidado com Medicamentos: Armazene os medicamentos em local seguro, longe do calor excessivo, que pode alterar sua composição e eficácia.
A conscientização é o primeiro passo. “Um ecossistema equilibrado contribui diretamente para a manutenção de uma vida saudável e para a prevenção de doenças”, finaliza Amanda Mello. Para o médico Evandro Soté, pequenas atitudes no cotidiano fazem uma grande diferença, como “consumir água filtrada, manter a casa protegida contra mosquitos e valorizar o plantio de árvores”. Cuidar do planeta, afinal, é também uma forma de cuidar da saúde de quem mais amamos e garantir que o Dia do Idoso seja sempre uma data de celebração de vidas plenas e bem cuidadas.
