Em um mundo que exige cada vez mais autonomia, pesquisas de universidades federais reforçam que a capacidade de fazer escolhas deve ser estimulada desde a primeira infância, transformando a relação com o conhecimento.
Portal Belém – Thaís Raquel de Moraes
22/07/2025 17h36 – Atualizado há 1 semana
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Esqueça a imagem da sala de aula silenciosa, onde o professor é o único detentor do saber e as crianças são meras espectadoras. Em um mundo cada vez mais complexo e dinâmico, a capacidade de tomar decisões, argumentar e pensar de forma crítica tornou-se uma habilidade essencial. E, segundo especialistas e pesquisadores, o desenvolvimento dessa competência começa muito antes do que imaginamos: na primeira infância. A palavra-chave é protagonismo infantil, uma abordagem pedagógica que coloca a criança no centro do seu próprio processo de aprendizagem.
Mais do que simplesmente “deixar a criança fazer o que quer”, o protagonismo infantil é sobre criar um ambiente onde ela seja incentivada a explorar, questionar, experimentar e, principalmente, a aprender a escolher. É uma mudança de paradigma que transforma a relação dos pequenos com o conhecimento e com o mundo ao seu redor. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) reforça essa visão, definindo a participação infantil como o processo em que as crianças, individual ou coletivamente, formam e expressam suas opiniões, influenciando assuntos que lhes dizem respeito. Esse direito à participação é um pilar fundamental para o desenvolvimento de cidadãos ativos e conscientes.
Estudos acadêmicos corroboram essa perspectiva. Pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Pará (UFPA), por exemplo, destacam que é na interação com o ambiente e através do brincar que a criança exercita sua autonomia. Ao negociar regras de um jogo com os colegas ou decidir como montar um brinquedo, ela está, na prática, aprendendo a deliberar e a se posicionar no mundo.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que orienta os currículos das escolas brasileiras, já aponta para a necessidade de desenvolver competências para o século XXI, como pensamento crítico, criatividade e colaboração. E a promoção da autonomia é um dos pilares para alcançar esses objetivos.
“Aqui, o aluno não é espectador, ele é protagonista. E protagonismo não é aprender sozinho, é estar envolvido, fazer escolhas, experimentar, errar e aprender com intencionalidade”, explica Caroline Aguiar, coordenadora pedagógica da Escola Canadense de Belém. “O aluno deixa de ser um receptor passivo e passa a ser agente ativo da construção do conhecimento”. Essa abordagem se reflete em práticas pedagógicas conhecidas como metodologias ativas, que incluem projetos interdisciplinares e aprendizagem investigativa.
Os benefícios de ser protagonista
O estímulo à autonomia e ao protagonismo desde cedo traz uma série de benefícios para o desenvolvimento infantil. Crianças que são incentivadas a fazer escolhas tendem a ser mais autoconfiantes, com uma autoestima mais elevada. Elas aprendem a confiar em seus próprios julgamentos e a se sentirem mais seguras para explorar o mundo.
Além disso, o protagonismo infantil é um poderoso motor para o desenvolvimento do pensamento crítico. Ao se deparar com diferentes opções e ter a liberdade de escolher, a criança aprende a avaliar as consequências de seus atos, a ponderar os prós e os contras e a formar suas próprias opiniões. “Nossas crianças são ouvidas, respeitadas e estimuladas a refletir sobre o que vivem. Isso torna o aprendizado muito mais significativo”, reforça Caroline Aguiar.
A capacidade de lidar com frustrações também é uma habilidade fortalecida pelo protagonismo. Errar faz parte do processo de aprendizagem, e quando a criança tem a oportunidade de experimentar e ver que nem sempre suas escolhas levarão ao resultado esperado, ela desenvolve a resiliência e a capacidade de buscar novas soluções para os problemas.
O papel da escola e da família
Para que o protagonismo infantil floresça, é fundamental que tanto a escola quanto a família estejam alinhadas nesse propósito. Na escola, isso se traduz em um ambiente que favorece a interação e a participação ativa dos alunos. O papel do educador, como apontam pesquisas acadêmicas, é o de um mediador que organiza os espaços e propõe desafios, em vez de apenas transmitir conteúdo. “Até a estrutura da sala de aula foi pensada para estimular essa autonomia, com espaços que favorecem a interação, o movimento e a descoberta”, conta a coordenadora da Escola Canadense de Belém.
Em casa, os pais podem estimular a autonomia dos filhos em pequenas tarefas do dia a dia, como guardar os brinquedos ou ajudar a preparar o lanche. É importante também criar espaços de diálogo, onde a criança se sinta à vontade para expressar suas opiniões. A parceria entre escola e família, um ponto valorizado pelo UNICEF, é essencial para fortalecer os vínculos e dar o suporte necessário para que a criança se desenvolva de forma plena e confiante.
Ao investir no protagonismo infantil, estamos, na verdade, investindo na formação de adultos mais preparados para os desafios do futuro. Cidadãos mais críticos, criativos, responsáveis e, acima de tudo, capazes de fazer suas próprias escolhas e construir seus próprios caminhos.
