Relatório da ONU revela que milhões de crianças no mundo não receberam vacinas essenciais. No Brasil, a queda vertiginosa nos índices de imunização acende um alerta vermelho para a saúde pública.
Portal Belém – Thaís Raquel de Moraes
23/07/2025 21h02 – Atualizado há 4 dias
5 Min
Foto: Divulgação
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O Brasil, que já foi referência mundial em vacinação, enfrenta uma queda perigosa na cobertura vacinal infantil. Um novo relatório da ONU acende o alerta: doenças como sarampo e pólio, que estavam controladas, correm o risco de voltar.
Especialistas da Fiocruz e do Butantan explicam que a desinformação é a grande vilã. Proteger nossas crianças é uma responsabilidade de todos! A vacinação é segura, gratuita e salva vidas.
Era um pacto silencioso, quase um ritual de passagem para cada nova geração de brasileiros. O choro rápido, seguido pelo afago dos pais e a certeza de um futuro mais seguro. A gotinha que nos livrou do fantasma da poliomielite se tornou um símbolo de um país que aprendeu a se orgulhar de sua capacidade de proteger suas crianças. O Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973, não é apenas uma política de saúde; é uma herança inestimável, um alicerce de nosso bem-estar coletivo. Mas esse alicerce vem mostrando rachaduras perigosas.
Um recente e contundente relatório das Nações Unidas, divulgado nesta terça-feira, 22 de julho de 2025, soou o alarme em escala global, e o eco ressoa forte em terras brasileiras. Segundo a ONU, dezenas de milhões de crianças em todo o mundo deixaram de receber vacinas essenciais que salvam vidas, criando um cenário propício para o retorno de doenças mortais que julgávamos controladas, como o sarampo e a própria poliomielite. O documento destaca que países que antes eram referência, como o Brasil, enfrentam agora uma queda vertiginosa e preocupante na cobertura vacinal.
O que antes era motivo de orgulho, hoje é fonte de apreensão. O Brasil, que já alcançou a erradicação de doenças como a poliomielite e a varíola, e manteve o sarampo sob controle por anos, vê seus índices de vacinação infantil despencarem para níveis alarmantes, os mais baixos em décadas. Especialistas do Instituto Butantan e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), duas das mais respeitadas instituições científicas do país, são unânimes: estamos flertando com um perigo que havíamos esquecido.
“A hesitação vacinal, impulsionada por desinformação e um falso senso de segurança, é um dos nossos maiores desafios”, afirma um pesquisador da Fiocruz. “As pessoas se esqueceram do poder devastador de doenças como o sarampo porque as vacinas funcionaram tão bem que as novas gerações não conviveram com essa realidade. É o paradoxo do sucesso.”
Um cenário global de retrocesso
A matéria da ONU News, intitulada “Mundo corre ‘risco real’ de surtos de doenças fatais para crianças”, pinta um quadro sombrio. A pandemia de Covid-19 sobrecarregou os sistemas de saúde e interrompeu as campanhas de vacinação em muitos países. No entanto, o relatório aponta que a queda já era uma tendência anterior, alimentada por conflitos, crises climáticas e, principalmente, pela disseminação de fake news que minam a confiança da população nas vacinas.
O documento revela que, em nações de baixa renda, o acesso limitado aos serviços de saúde é a principal barreira. Crianças em zonas de conflito ou em comunidades remotas simplesmente não têm a chance de receber a imunização. Esse cenário trágico serve como um espelho e um aviso para o Brasil. Embora o acesso seja garantido e gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a queda nos índices mostra que as barreiras aqui são outras: a desinformação e a complacência.
O Calendário da Vida: Uma ferramenta ao alcance de todos
A solução, no entanto, continua ao alcance das mãos, nos postos de saúde de todo o país. O Calendário Nacional de Vacinação Infantil é um dos mais completos do mundo, oferecendo proteção gratuita contra mais de 15 doenças.
Desde os primeiros dias de vida, o calendário estabelece um cronograma essencial para a saúde da criança:
Ao nascer: BCG (contra formas graves de tuberculose) e Hepatite B.
Aos 2 meses: Pentavalente (difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e Haemophilus influenzae tipo b), VIP (vacina inativada contra a poliomielite), Pneumocócica 10 e Rotavírus.
Aos 4 meses: Segunda dose da Pentavalente, VIP, Pneumocócica 10 e Rotavírus.
Aos 6 meses: Terceira dose da Pentavalente e VIP.
Aos 12 meses: Primeira dose da Tríplice Viral (sarampo, caxumba e rubéola) e reforço da Pneumocócica 10.
Aos 15 meses: Reforço da DTP (tríplice bacteriana), VOP (vacina oral contra a poliomielite – a famosa “gotinha”), e primeira dose da Hepatite A e da Varicela.
“Cada vacina no calendário é resultado de décadas de pesquisa e representa a forma mais segura e eficaz de prevenção”, reforça um porta-voz do Instituto Butantan. “Vacinar não é apenas um ato de proteção individual, mas um compromisso coletivo. Quando uma criança é vacinada, ela protege a si mesma e também seus amigos, colegas de escola e toda a comunidade, especialmente os mais vulneráveis que não podem ser vacinados.”
O alerta da ONU não deve ser visto como uma sentença, mas como um chamado urgente à ação. O Brasil tem a estrutura, o conhecimento e a história para reverter essa tendência. A herança do Zé Gotinha e de um PNI que foi modelo para o mundo precisa ser honrada. A tarefa é de todos: governos, profissionais de saúde e, principalmente, de cada pai e mãe. Proteger nossas crianças é proteger o nosso futuro, e essa proteção começa com um gesto simples, seguro e que salva vidas.
Por Portal Belém.
